sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Carta de uma mãe Alentejana

Mê querido filho,

Escrevo devagar por que sei que não gostas de ler de pressa.
Se receberes esta carta, é porque chegou.
Se ela não chegar, avisa-me que eu mando-te outra.
Tê pai leu no jornal que a maioria dos acidentes ocorrem a 1 km de casa.
Assim, mudámo-nos para mais longe.·
Sobre o casaco que querias, o tê tio disse que seria muito caro mandar-to pelo correio por causa dos botões de ferro que pesam muito.
Assim, arranquei os botões e puse-os no bolso.
Quando chegar aí, prega-os de novo
No outro dia, houve uma explosão na botija de gás aqui na cozinha.
O pai e eu fomos atirados pelo ar e caímos fora de casa.
Que emoção: foi a primeira vez em muitos anos que tê pai e eu saímos juntos.
Sobre o nosso cão, o Joli, anteontem foi atropelado e tiveram de lhe cortar o rabo, por isso toma cuidado quando atravessares a rua.
Na semana passada, o médico veio visitar-me e colocou na minha boca um tubo de vidro.
Disse para ficar com ele por duas horas sem falar.
O teu pai ofereceu-se para comprar o tubo.
Tua irmã Maria vai ser mãe, mas ainda não sabemos se é menino ou menina, portanto não sei se vais ser tio ou tia.
O teu irmão António deu-me muito trabalho hoje.
Fechou o carro e deixou as chaves lá dentro.
Tive que ir a casa, pegar a suplente para o abrir.
Por sorte, cheguei antes de começar a chuva, pois a capota estava em baixo.
Se vires a Dona Esmeralda, diz-lhe que mando lembranças.
Se não a vires, não digas nada.

Tua Mãe